Panóptico Pandémico


O panóptico do Rilhafoles


O poder, nas extremidades menos jurídicas do seu exercício, só tem uma via: apropriar-se da produção de conhecimento numa relação recíproca e reprodutora. O poder, que reprime, é também aquele que produz efeitos de saber e verdade. Não consigo observar o comportamento político global face a esta pandemia e deixar de pensar em Foucault. Deparamo-nos com um desses acontecimentos em que o poder político não pode ter resposta porque o biopoder, de armadura e lança, senta-se no trono e grita: aqui não há políticos, aqui há apenas verdade.

A biopolítica e a regulação do comportamento individual, a uniformização das atitudes na forma como os processos humanos são geridos através da autoridade científica e os processos da sua subjetivação que a tornam intáctil e, consequentemente, intocável. O conhecimento é incorpóreo porque diverso e, no entanto, subjuga a autoridade. Números que são proporções que nos ensinam a disciplinar o nosso comportamento que, caso não seja espontaneamente disciplinado, o será pela aplicação da lei de exceção. A aplicação da legalidade que o conhecimento lhe conferiu. A força como forma de disciplina. Mas a legislação imposta prescinde de aplicação porque a regulação do comportamento individual, auto-regula o comportamento colectivo. Sob constante vigilância, a normalização é estabelecida.

O poder restritivo dá o exemplo, o comportamento individual corrige-se, adapta-se “ao novo normal”, cria terminologia que serve a prática discursiva e passa à etapa seguinte: a avaliação. Esta ditará a necessidade de maior ou menor imposição de disciplina e essa doutrinação recriminadora é legítima porque provém de um enquadramento científico. A Foucault podemos juntar Joseph Nye e o “soft power”, porque não há melhor propaganda do que a credibilidade — e, diga-se, já ninguém fala de política externa chinesa sem falar de Nye. Recapitulando, sob constante vigilância, o comportamento normaliza-se.

A questão é que essa vigilância não precisa de ser orwelliana porque o poder não está confinado a uma instituição, quando todos somos agentes de vigia, todos somos agentes de disciplina e somos o olhar, um le regard global que assimila o que aprende de acordo com aquilo que é. Vivemos no Panóptico porque somos o polícia no centro da prisão a olhar para os reclusos e somos reclusos em simultâneo.

Concluímos, assim, que a prisão não tem por objetivo a justiça mas antes a estruturação da ordem social e a manutenção do poder onde ele já está, naturalmente disseminado, em formas que não estão ao nosso alcance porque demasiado múltiplas.

Se um colectivo preferir manter determinadas liberdades democráticas em detrimento da sanitização da normalização do pensamento global, não será igualmente legítimo? Pensemos em Foucault e na episteme, “a ordem das coisas” e as estruturas inconscientes subjacentes à produção de conhecimento científico. Pensemos nos números ou como os números nos tornam dóceis. Sejamos menos espontâneos, por vezes.

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