aos amigos




eu e os meus amigos estamos todos a beber e há pedras perigosas que se alastram pelas veias fluorescentes das horas. os meus amigos têm rostos amargos ouvem música confusa música com mel que desagua num oceano eléctrico de guitarras alguns acariciam a pele raspada da noite alguém responde a uma sms perdida nos confins da despedida alguém se perde no azul frio da noite e o álcool rubro das palavras escoa no sentido inverso aos ponteiros do sono. os meus amigos estão enleados a sorrisos de enxofre e há fotografias de tinta cravadas no pânico dos desejos e há libidos de cetim a iluminar a inteligência nómada e há casas temporárias que imitam a saliva das lâminas lâminas lambidas por paredes canibais. festas adocicadas, festas de pólvora que acabam por explodir em ecrãs aleatórios. os meus amigos e os seus olhos líquidos, os seus olhos esquecidos no fogo de todos os amantes clínicos de todos os amantes patológicos o vento murcho a crepitar pelas alucinações a festa, os amigos e este ligeiro odor a penumbra e este ligeiro insecto agarrado aos ombros do silêncio, o silêncio que sangra. a sujidade plastificada rumo às estratégias ambulantes estratégias fulgurantes, traçadas na libido peregrina. todos os meus amigos prisioneiros da liberdade ancoram em ilhas de desejos dilacerados em filmes indecisos a escancarar as portas da lucidez a invadir os líquidos que crescem para a luz a luz que devora todas as dores. e alguém se isola na escuridão de um nome e se esvai em juventude e alguém grita um grito demasiado tenebroso mas festivo, ainda assim, festivo e os meus amigos embebidos em álcool pousam nas minhas infecções. os meus amigos e a sua respiração aflitiva e as suas gargalhadas-sirene e os seus raciocínios montanhosos e as suas intrigas esplendorosas e o brilho do seu desespero e o vagaroso brilho dos seus desesperos. Em O Sono Extenso, Âncora Editora


Foto por Vitorino Coragem

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