Poesia

Atualizado: Jun 12





Casa

a casa morre através do verniz

adormecido da porta.

há nela uma música permanente

como uma funda tempestade.

há sombra de cetim

a consumir os olhos

e medo entornado muito devagar

por todos os segundos que a habitam.

a casa,

enquanto verbo,

é silêncio.

“Uma Devastação Inteligente”, Atelier Editorial, 2007


Domingo

hoje é domingo e as imagens escoam-me pelo queixo,

fazem poças de promessas

sobre a virtude.

eu diria que os dias são sensivelmente todos iguais:

todos se apresentam esmagados e inspiradores,

lumes horizontais no soalho,

brisas que ascendem pelas frestas das páginas

até à melancolia dominical.

o universo recosta-se no seu software complexo

mas fácil de manusear na óptica do utilizador.

é domingo e ninguém me conhece.

é como estar deitada sobre uma linguagem lunar,

torcendo-me para te alcançar a ausência,

diversificando a velhice ao fim-de-semana.

“O Sono Extenso”, Âncora Editora, 2011





Lis

sento-me na margem da tua infância

e recupero o gosto pelo esquecimento.

as minhas mãos traçam o momento

em que o teu corpo aberto colide com o mar.

imagino o oceano em que te deitas

e a forma como

a tua boca de areia se alarga

até à Praia da Vieira.

imagino os rascunhos de memória

que as horas vão largando

ao longo do caminho.

sinto-te um prolongamento do meu pensamento,

pensamento de água

volátil como a noite que te abriga,

fragmentário como o cheiro do teu nome de flor.

“O Sono Extenso”, Âncora Editora, 2011





Dizes-me que a fúria é concêntrica,

na tua memória a minha cabeça arde constantemente,

os nossos diálogos são vento

abraçávamo-nos na menstruação da neve,

o riso espalhava-se até à ponta das cicatrizes.

pela curva do rosto foste estendendo vocabulário:

beleza, idade, suspiros.

eu nunca confiei em Janeiro,

nem no meu corpo bordado.

aos poucos a dor humedecia

a história simplificava-se,

o oxigénio deslizava sobre as paredes

mas não era a mesma coisa

o Inverno imóvel,

a lingerie sensível,

a mão gloriosa parada na fornalha.

ardo às vezes

mas depois passa.

“O Movimento Impróprio do Mundo”, Âncora Editora, 2016





Uma poeta

nenhum poema é terrível

se o conseguires transportar às costas

deixa-me contar-te

a relação tenebrosa entre o olhar e o rosto

a beleza original dos escombros

escondida nos músculos dos planetas.

hoje somos raízes

e amanhã linguagem.

deita-te nas imediações da morte

na coluna da cratera

deixa vegetar aberta

a voz pálida de um prodígio sem audiência.

“O Movimento Impróprio do Mundo”, Âncora Editora, 2016





A literatura é uma fábrica

com miolos azuis

manhãs burguesas,

telefones ou telemóveis que vibram com os lábios

um automóvel, um prédio

um fascismo vulnerável

num horizonte proletário,

a lógica escorrega-me

diretamente da gargalhada,

mas o meu género é subgénero

asfixiado,

transpirado

transpira pelas paredes.

que venha o fado

ou então o gado, para facilitar,

talvez o gado.

“O Movimento Impróprio do Mundo”, Âncora Editora, 2016





Quarto

mergulho nos dedos furiosos da árvore,

num sussurro indígena.

os olhos ligados pelo músculo do medo.

tenho o quarto furado até ao fôlego

e a noite ordeira

circula-me por dentro.

pensar sangra e o sangue verte sobre

o sono dos objetos e

o chão absoluto

os nomes atirados contra a parede

constroem um lento orgasmo nas válvulas do silêncio.

“O Movimento Impróprio do Mundo”, Âncora Editora, 2016



Se vieres trabalhar todos os dias de fato,

sentes-te melhor.

aliás, se vieres trabalhar todos os dias de gravata

fazes o teu trabalho melhor.

se todas as noites escolhes a camisa

é porque sabes que o dia a seguir existe

se passares o blazer a ferro é porque

a angústia é uma coisa que se distrai

com horários e despertadores

relatórios de reunião,

gestão de clientes,

estratégias de marketing

se todos os dias todos

os dias forem de trabalho

já não gritas, não dói

não sentes, não mentes

se todos os dias o trânsito,

o cansaço, o infantário

as contas para pagar

se todos os dias os dias todos

num só e depois acaba.

“A Transfiguração da Fome”, Editora Labirinto, 2018




Catedrais Contemporâneas

esta é uma vila com mais de dez milhões de habitantes

são carros e gente e bicicletas

num caos perpétuo.

é certamente uma vila porque as pessoas têm mãos sujas

e expectativas de sobrevivência pelo seu próprio cultivo

da paz interior.

vidas de néon que constantemente atravessam estradas

em direção a catedrais contemporâneas:

os edifícios que tentam chegar a Deus

ou são os donos dos edifícios deuses sem causa?

passa por mim um fantasma global

cheio de violência nómada.

trocamos respirações poluídas.

o outro lado do mundo é igual ao outro lado do mundo.

“A Transfiguração da Fome”, Editora Labirinto, 2018





Ni hao!

queria dizer ni hao estou muito contente

por estar a aqui

mas toda a gente sabe que só a pele

é expatriada.

tudo o resto pede retorno, os ossos

as veias, os traços mais poluídos

dos sinogramas.

toda a gente quer dizer xiexie

mas não me sinto grata

por cavalgar o búfalo taoista

na parede do templo,

rodopio yin yang da minha frágil convicção.

toda a gente quer dizer jiayou

mas não há combustível

para dessincronizar os sentidos.

há apenas este atravessar de estrada sem tons,

este sabor a moedas,

este odor ao incenso do corpo.

vou de bicicleta de encontro ao poema,

como um Herberto Helder taoista.

de que me serve este passado ruivo,

esta voz a cigarro,

estas corridas em direção aos poemas,

de que me serve o poema por debaixo do rosto.

“A Transfiguração da Fome”, Editora Labirinto, 2018


Publicado em Triplov

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